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A Caridade e a Violência dos Pobres

por Redacção
29 de Outubro, 2024
em Actual, Opinião
Tempo Leitura:9 minutos a ler
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A Caridade e a Violência dos Pobres
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Começar uma crónica com a palavra caridade é enfrentar a parede da famoso lápis azul da censura que nos amarrou antes do 25 de Abril e que hoje bloqueia a liberdade de análise nos órgãos de comunicação social. Mas é uma tarefa de ontem e de hoje e portanto – eu que não gosto do “politicamente correcto” – aqui estou para remar contra a maré.

E coloco-me neste patamar narrativo para sublinhar o melhor que existe no nosso país, em termos sociais, para explicar o verdadeiro “milagre” português que está a acontecer nas instituições particulares de solidariedade e de outras organizações comunitárias na proteção e luta contra o drama da pandemia.

São  milhares de pessoas – mais de setenta mil – que diariamente, depois de largarem os seus empregos, se deslocam para as instituições para garantirem a melhor gestão do bem público que é o de acolher crianças e idosos nas mais diversas soluções que as IPSS garantem à comunidade; são muitas mais as pessoas que pela sua actividade profissional nestas organizações constituem um exército de bem fazer e cuidar dos nossos amigos e familiares, permitindo assim que nos dediquemos às nossas tarefas profissionais, sabendo nós que os nossos entes queridos estão “protegidos e em boas mãos”.

Já parou para pensar – não é preciso muito tempo – o que seria da actividade económica no nosso país, se não tivéssemos estas instituições de retaguarda?

A minha vida profissional levou-me a conhecer estas respostas sociais desde os anos 80 e posso dizer que conheço relativamente bem os tipos de respostas que são dadas em todo o país. Uma resposta da sociedade civil que, alheia a preocupações e estratégias partidárias e mesmo políticas, se mantém na primeira linha de fogo, todos os dias.

Encontro nestas instituições exemplos e testemunhos de caridade (fazer bem com espírito de humanidade). Dizendo isto com linguagem politicamente correcta “serviços de proximidade no respeito pelos direitos dos utentes!

Mas eu vejo caridade e muita quando visito instituições e partilho algum tempo com os seus dirigentes e trabalhadores. Quando aqui entramos vemos que é diferente visitar uma instituição ou visitar uma empresa, e verificar a entrega e carinho que verificamos na actividade de cada um.

Eu conheço as motivações que são históricas na inconveniência de usar o termo caridade. Vem de longe: na obra “A alma do homem sob o socialismo”, de Óscar Wilde, refere-se que  “um modo ridiculamente inadequado de restituição parcial … geralmente acompanhado por alguma tentativa impertinente por parte do sentimentalista de tiranizar as vidas privadas [dos pobres]”, bem como um remédio que prolonga a ‘doença’ de pobreza, em vez de curá-la”.

Quem cheira e sente o odor dos pobres e visita crianças e velhos nas instituições conhece bem esta posição. Aliás, um pensador esloveno,  Slavo Zizek, comenta o efeito da caridade sobre quem a recebe desta maneira: “ “Pelo preço de um par de cappuccinos, você pode continuar na sua vida ignorante e prazerosa, não só não sentindo culpa, mas sentindo-se bem por ter participado da luta contra o sofrimento!”  (Slavoj Žižek (2010). Living in the End Times).

Em português corrente é comum dizer-se que “não há lugar para a caridade perante o que é devido pela justiça! Isto vem de longe.

Friedric Engels, lembra-nos já em 1845, com base na condição da classe trabalhadora na Inglaterra, quando aponta que as doações, seja por governos ou indivíduos, são frequentemente vistas pelos doadores como um meio de esconder o sofrimento que é desagradável de ver.

Engels cita de uma carta ao editor de um jornal inglês que reclama que o burgês inglês  “(…) é caridoso por interesse próprio; não dá nada de imediato, mas considera suas doações como um negócio, faz um acordo com os pobres, dizendo: “Se eu gasto tanto em instituições benevolentes, compro o direito de não ser mais incomodado, e você é obrigado a ficar nos seus buracos escuros e não irritar os meus tenros nervos, expondo a sua miséria. Você deve-se desesperar como antes, mas você deve-se desesperar sem ser visto, isso eu exijo, isso eu compro com a minha assinatura de vinte libras para a enfermaria! É infame, essa caridade de um burguês cristão!”

Esta posição de Engels fez bom caminho no discurso político social sobretudo na Europa e felizmente teve consequências recentes na política portugesa:

Quero lembrar a instituição do salário mínimo;

Evolução do salário mínimo em Portugal desde 1974 até 2006
Efectivo emServiço
Doméstico
AgriculturaRestantes
Actividades
27 de Maio de 19743300$
16 de Junho de 19754000$
1 de Janeiro de 19773500$4500$
1 de Abril de 19783500$4500$5700$
10 de Outubro de 19794700$6100$7500$
1 de Outubro de 19805700$7500$9000$
1 de Outubro de 19816800$8950$10700$
1 de Janeiro de 19838300$10900$13000$
1 de Janeiro de 198410000$13000$15600$
1 de Janeiro de 198513000$16500$19200$
1 de Janeiro de 198615200$19500$22500$
1 de Janeiro de 198717500$22400$25200$
1 de Janeiro de 198819500$24800$27200$
1 de Janeiro de 198922400$28400$30000$
1 de Julho de 198924000$30000$31500$
1 de Janeiro de 199028000$34500$35000$
1 de Janeiro de 199133500$40100$
1 de Janeiro de 199238000$44500$
1 de Janeiro de 199341000$47400$
1 de Janeiro de 199443000$49300$
1 de Janeiro de 199545700$52000$
1 de Janeiro de 199649000$54600$
1 de Janeiro de 199751450$56700$
1 de Janeiro de 199854100$58900$
1 de Janeiro de 199956900$61300$
1 de Janeiro de 200060000$63800$
1 de Janeiro de 200164300$67000$
1 de Janeiro de 200268410$
341,23 €
69770$
348,01 €
1 de Janeiro de 2003353,20 €356,60 €
1 de Janeiro de 2004365,60 €
1 de Janeiro de 2005374,70 €
1 de Janeiro de 2006385,90 €

Em 2007,  as regiões autónomas passaram cumulativamente a fixar o próprio salário mínimo

Efectivo emPortugal ContinentalR. A. Dos AçoresR. A. Da Madeira
1 de Janeiro de 2007403,00 €423,15 €411,16 €
1 de Janeiro de 2008426,00 €447,30 €434,52 €
1 de Janeiro de 2009450,00 €472,50 €459,00 €
1 de Janeiro de 2010475,00 €498,75 €484,00 €
1 de Janeiro de 2011485,00 €509,25 €494,00 €
1 de Outubro de 2014505,00 €530,25 €515,00 €
1 de Janeiro de 2016530,00 €556,50 €540,60 €
1 de Janeiro de 2017557,00 €584,85 €568,14 €
1 de Janeiro de 2018580,00 €609,00 €592,00 €
1 de Janeiro de 2019600,00 €
1 de Janeiro de 2020635,00 €  

Quero lembrar o Rendimento Mínimo de Inserção:

A criação do Rendimento Mínimo Garantido veio dar resposta à recomendação do Conselho de Ministros da União Europeia para que os Estados-membro reconhecessem «no âmbito de um dispositivo global e coerente de luta contra a exclusão social, o direito fundamental dos indivíduos a recursos e prestações suficientes para viver em conformidade com a dignidade humana».

A lei foi criada a 29 de junho de 1996 e Eduardo Ferro Rodrigues, Ministro da Solidariedade e Segurança Social na altura, afirmou então que passava a ser reconhecido «a cada cidadão residente em Portugal o direito a um nível mínimo de subsistência, desde que se encontre numa situação de exclusão social e esteja ativamente disponível para seguir um caminho de inserção social».

Estes dois pilares – salário mínimo e rendimento mínimo de inserção – garantem a “democratizaçao do dinheiro” em Portugal e são estruturais na luta contra a pobreza.

Vivemos pois num estado democrático, com uma rede de respostas sociais de excelência e com uma resposta eficaz perante as  surpresas que a civilização coloca.

Mas não chega: o modelo de organização económica e a filosofia financeira que lhe subjaz tem de ser questionado. E temos de começar por responder às preocupações dos mais pobres pois é aí que devemos testar todas as teorias para encontrarmos um caminho que não exclua ninguém.

Hoje a globalização da informação, garantida pela internet, pede ao pobre para fazer download de imagens e de soluções de luxo, quando ele anda de chinelos e procura em cada dia comida para os filhos. Neste enquadramento que solução procurar, sabendo – como lembra o Papa Francisco – que “ninguém se salva sozinho”.

Precisamos de caridade – querer bem – para, não esquecendo ninguém, encontrarmos um modelo democrático preocupado em salvar os pobres como medida preferencial e só depois ter tempo para salvar as instituições financeiras.

Um morcego na China colocou o mundo de pernas para o ar e pôs as pessoas a questionar o sentido da vida, e talvez da história. Imaginem se os pobres se revoltam, acampam nas ruas e exigem ser tratados com humanidade no respeito  pelos seus direitos.

O sol nasce para todos, mas as sombras do dinheiro desenham trevas que é preciso enfrentar.

A evolução até hoje do Salário Mínimo

As Associações no discurso político

Reagindo aos tumultos na área metropolitana de Lisboa, o primeiro-ministro, Luís Montenegro anunciou que os organismos do Estado, nomeadamente PSP e GNR e outras entidades iriam reunir para avaliar a melhor forma de enfrentar o problema. E pela primeira vez no discurso público incluiu as associações locais como parceiras na discussão. Surpreendeu, é claro, a narrativa do costume mas acertou no coração do problema.

Na memória temos os tumultos em Paris. O governo francês chamou ao Eliseu os parceiros institucionais mas também académicos depois de uma reunião oficial as forças armadas francesas terem apresentado um relatório onde se apontavam algumas regiões do território como “perdidas para a República”, isto é zonas onde o Estado poderia entrar pela força mas sem poder de comunicação com os residentes.

Foi nesta circunstância que o filósofo Gilles Lipovetsky defendeu que a base de uma política social integradora deve partir do envolvimento das associações locais, ser por elas orientada e construída considerando que a solidariedade social é a pedra angular para a construção de uma sociedade aberta a todos – raças, credos, etc – e a última possibilidade de a democracia ocidental resistir aos desafios atuais que idolatram os profetas do poder fácil.

A violência dos pobres não tem retorno. Tudo destrói. Devemos evitar isso na promoção e defesa das relações sociais de base, de que são exemplo as instituições particulares de solidariedade social. Que as deixem trabalhar também será um bom desígnio.

VEJA MAIS SOBRE GILLES LIPOVETSKY

Por Arnaldo Meireles, jornalista.

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