” O Conde de Abranhos, com a sua intuição, sentiu que se estava preparando uma nova política, que, condizendo com o seu temperamento, seria o elemento natural em que a sua fortuna medraria como num terreno propício. Ele bem sabia que o governo nada perdia do seu favor discricionário – mas que apenas o disfarçava. Em vez de bater uma forte patada no país, clamando com força: – Para aqui! Eu quero! – os governos democráticos conseguem tudo, com mais segurança própria e toda a admiração da plebe, curvando a espinha e dizendo com doçura: – Por aqui, se fazem favor! Acreditem que é o bom caminho!”
in Conde de Abranhos, por Eça de Queirós
O Governo marcou as eleições autárquicas deste ano para 12 de Outubro, estando já no terreno a pré-campanha eleitoral com a novidade do número crescente de candidaturas. Além do PS, do PSD e CDS – que concorrem coligados – e a CDU aparecerão na lista eleitoral também a Iniciativa Liberal, o Chega e a candidatura independente “Unidos por Paços de Ferreira”.
A proliferação de listas oferece aos eleitores mais opções de escolha pelo que os dois partidos maiores no município terão um desafio renhido e provavelmente o concelho terá uma Assembleia Municipal mas diversa e plural.
Esta diferença substancial poderá levar à melhoria do ambiente político que desde 1974 construiu o seu discurso político baseado em maiorias absolutas, primeiro do PSD e depois do PS.
Mantendo-se imprevisível o resultado final para o Executivo da Câmara sabe-se que quem ganhar terá de mostrar uma superior qualidade democrática – coisa que infelizmente não tem acontecido.
Infelizmente para todos, os últimos três mandatos decorreram sob a vontade antidemocrática do presidente eleito que mesmo com os seus deu exemplos de tirania absoluta. Disso nos poderá falar Ricardo Pereira que sendo presidente da Assembleia Municipal teve de enfrentar o desconhecimento da lei do presidente que lhe queria impôr a melhor forma de redigir uma ata.
Nestas mesmas assembleias municipais vimos o presidente, e a sua bancada por ele treinada, num ato de insulto contínuo, muito acima do aceitável em debates civilizados com ataques à honra dos adversários.
É provável que este cenário evolua para melhor tendo em conta os atuais cabeças de lista candidatos à presidência, todo eles capazes de um comportamento normal e dentro das regras da civilidade.
Dir-se-ia que vença quem vencer ganharemos todos por passarmos a ter, no mais importante lugar da democracia local, um ambiente civilizado, Isso será bom. O povo merece ser respeitado.
A Campanha e as campanhas
Todos nos lembramos das promessas feitas nos últimos três mandatos e todos sabemos quantas foram cumpridas. Para a memória fica o teatro democrático do ex-presidente que tudo nos prometeu e nada cumpriu: ETAR, Comboio, Resgate da Água, Casa das Artes, Pista de Atletismo no SCF, quartel da GNR em Freamunde e obras no quartel de Paços de Ferreira, Central de Camionagem, integração na Área Metropolitana do Porto, piscinas exteriores em Freamunde, e muitas mais promessas que os nossos leitores se lembrarão.
Olhando para estes três mandatos se percebe o logro de um homem só que não cuidou apenas de nos enganar; tratou mesmo de “domesticar” o PS ao seu arbítrio (moldável e inconsistente) e por isso foi o criador da candidatura independente Unidos Por Paços de Ferreira, hoje liderada pelo seu ex-vice-presidente Paulo Barbosa.
O narcisimo infantil do homem de Carvalhosa tudo aplainou de acordo com a sua vontade e a sua gravata mais parece um eucalipto que cresce, sobre muitos, mas suga tudo à sua volta para garantir que ninguém brilhe além dele. Assim liquidou o PS em Paços de Ferreira.
O PS de Paços de Ferreira
O PS é necessário em Paços de Ferreira com os seus melhores militantes. Veremos o resultado de Outubro. A tarefa liderada pelo candidato Paulo Ferreira é difícil embora com o ativo de ser poder. Veremos se se apresenta com linguagem própria e se resiste à ordem de ser apenas um clone das memórias que terá na cabeça depois de tantos anos na sombra, no papel sofrido de ser segundo de um primeiro que ninguém consegue aturar.
Mas também temos que considerar que a vida política não terminará a 12 de Outubro, sobretudo para o PS. Além de ser preciso na nossa terra é fundamental que consiga ser uma matriz dos valores humanos e democráticos em todo o país. E desejamos muito que o PS local não fique refém dos seus fantasmas mas que se liberte deles.
Voltemos ao Conde de Abranhos
“Há ministérios que se gastam. E todavia, esses ministérios, como os outros, administram o tesouro com honestidade, fazem o expediente das secretairias com suficiente regularidade, mantêm no pais uma ordem benéfica, não oprimem nem a imprensa nem a consciência, são respeitosos para com o Chefe de Estado, acompanham com dignidade, ao Alto de São João, todos os defuntos ilustres, falam das Câmaras com honrosa correção , são na vida privada cidadãos estimáveis, e no entanto – ao fim de alguns meses desta rotina honesta, pacata e higuiénica – gastam-se.
Gastam-se porquê? Compreende-se que um ministério que luta com dificuldades, que se coloca ao través da opinião pública, se gaste, como ao través de um frágil estacado que uma corrente hostil incessantemente bate. Compreende-se ainda que um governo criado especialmente para resolver certas questões sociais ou políticas, se torne desnecessário desde que as tenha resolvido, e fique como o zangão que fecundou a abelha e é daí em diante um inútil.
Mas quando se não dá nenhuma destas hipóteses, quando os ministros não foram trazidos do seio da sua família para resolver questões sociais, – ou que as não haja, ou porque seja um princípio tacitamente estabelecido deixá-los sem resolução – quando, em lugar de se esforçarem contra a larga corrente da opinião, os ministros lhe boiam regaladamente no dorso, não compreendo como um ministério se possa gastar.
Um dia pedi respeitosamnete ao Conde de Abranhos a explicação da palavra e do fenómeno, e S. Ex, o que raras vezes sucedia, deu uma resposta vaga, tortuosa, reticente:
- É uma coisa que se sente no ar. É um não sei quê… Sente-se que a situação está gasta…
Não me permitiu o respeito que insistisse, mas, no fundo do meu entendimento, guardo um secreto terro por este fenómeno incompreensível!
in Conde de Abranhos de Eça de Queirós
Leitura para o fim-de-semana: manual-de-um-ditador
Por Arnaldo Meireles





