A campanha presidencial de André Ventura está a ser apresentada com cartazes que testam as leis da República apesar de justificar o seu conteúdo como “liberdade de expressão”.
Esta semana deu entrada na Procuradoria Geral da República um requerimento do advogado e ativista político Garcia Pereira a pedir a extinção do “neofascista” Chega por violação da Constituição”.
Aos jornalistas Garcia Pererira considerou “que os fascistas se combatem sobretudo na rua”, fazendo-lhes “frente, denunciando-os e desmascarando-os sem hesitações nem desfalecimentos”, mas esse “combate pode e deve fazer-se também ao nível da luta jurídica”. E por isso apresentou formalmente a queixa.
Os cartazes em causa, como o que reproduzimos na abertura deste texto, configuram um crescendo na linguagem pública do candidato presidencial e o partido que lidera, num contexto que configura a prática do crime de ódio, de racismo e outros definidos na lei geral.
André Ventura é jurista, tem conhecimento da natureza dos crimes praticados e mantém o rumo político tendo em vista a manutenção do seu partido no ranking eleitoral, como “segunda força” no país afirmando-se por isso “líder da oposição”.
O crescendo na violência verbal e gráfica, nestas eleições presidenciais configura um caminho que se previa e chegou a preocupar os seus conselheiros que lhe falaram do risco para o partido na sua candidatura presidencial onde arrisca colocar em causa o resultado alcançado nas eleições legislativas.
Mas verifica-se que o crescendo de linguagem configura um teste às leis da República – um caminho perigoso para o partido.
Primarismo como opção de perceção política
O primarismo como opção de percepção política refere-se à tendência de simplificar o raciocínio político, privilegiando relações pessoais, clientelismo e narrativas imediatas em detrimento de análises ideológicas ou estruturais.
Esta opção de pensar a política privilegia o contato direto, a informalidade e a troca de favores, criando uma percepção de proximidade entre o eleitor e o candidato, muitas vezes à custa de debates mais profundos sobre políticas públicas ou projetos de sociedade.
Opta-se pela redução da complexidade política, apresentam-se narrativas simplificadas e promove-se a desconfiança das instituições.
Mas eis que chegou a hora de enfrentar a lei e caminhar numa estratégia de confronto com ela. E aqui entra André Ventura e o seu partido num limite existencial que poderá indicar o caminho da desgraça.
O povo português, aquele que tem capital de queixa do sistema, do Governo ou de outro tipo de poder, não é nem nunca foi racista. Pelo que o cartaz divulgado é apenas sinal de desespero, de último argumento de marketing político que sabe e conhece o risco que está a correr.
O que nos lembra a história política portuguesa
O PRD surgiu como uma força reformista em 1985, mas enfrentou rápida desintegração política, culminando na sua dissolução em 2000.
O Partido Renovador Democrático (PRD) foi fundado em 10 de julho de 1985, com o apoio tácito do então Presidente da República, António Ramalho Eanes. A sua criação foi motivada por um desejo de moralizar a vida política nacional e oferecer uma alternativa ao sistema partidário tradicional, especialmente após o desgaste provocado pela coligação PS–PSD entre 1983 e 1985.
Ascensão rápida (1985–1987)
- Fundador: Hermínio Martinho, com Ramalho Eanes como figura tutelar.
- Ideologia: Centrista, com traços de eanismo, populismo e social-democracia.
- Eleições legislativas de 1985: O PRD obteve 18% dos votos, tornando-se a terceira força política no Parlamento. Foi decisivo para a sustentação do governo minoritário de Cavaco Silva.
- Expectativa popular: Representava uma esperança de renovação política e combate à corrupção.
Declínio acelerado (1987–2000)
- Eleições locais de 1985: Revelaram fragilidades organizativas.
- Presidenciais de 1986: Apoio a Salgado Zenha, que não passou à segunda volta.
- Eleições legislativas de 1987: Após a queda do governo de Cavaco Silva, o PRD sofreu uma derrota esmagadora, perdendo quase toda a sua representação parlamentar.
- Fragmentação interna: Divergências ideológicas e falta de liderança clara após a saída de Ramalho Eanes.
- Desaparecimento progressivo: Apesar de não ter sido formalmente extinto até 2000, o partido perdeu relevância política e deixou de ter expressão eleitoral significativa.
Ora puxando pela memória o PRD é frequentemente citado como exemplo de partidos que surgem com forte apoio simbólico, mas que não conseguem consolidar estrutura e base eleitoral duradoura.
Em análises recentes, foi comparado ao Chega, como um exemplo de partido que tenta capitalizar o descontentamento popular, embora com ideologias distintas.
O resultado das eleições presidenciais de 18 de Janeiro de 2026
Esperemos assim por Janeiro para conhecermos a resposta do povo português a esta proposta racista (e por isso fascista) protagonizada por André Ventura. Nessa altura poderemos avaliar a tendência do caminho em que o líder do CHEGA meteu o seu partido.
Por Arnaldo Meireles





