«Amigo Povo! José – Chamam-te para ires votar amanhã pela manhã nos Homens a que têm de ser confiados os interesses da tua educação e da tua saúde, os destinos da tua vida como animal e como cidadão.

Vai. Mas antes de votar, arregala esse olho.
- Se elegeres gente nova que não venha a servir-te para coisa nenhuma, serás – um infeliz.
- Se elegeres gente velha, que te provou já, até uma saciedade hidrópica, que não presta para nada – serás uma besta.
- Lembra-te que há vinte anos que não tens coisa que se pareça com o que se chama no resto da Europa uma administração municipal.
- Onde está o teu liceu?
- Onde está o teu jardim de infância?
- Onde está o teu jardim de aclimatação colonial?
- Onde estão as tuas docas?
- Onde estão as tuas bibliotecas populares?
- Onde estão os planos das tuas edificações?
- Onde estão os teus banhos e os teus lavadouros públicos?
- Onde está o programa da decoração das tuas praças e dos teus edifícios municipais?
- Onde está o teu museu industrial?
- Onde está a limpeza dos teus canos?
- Onde está finalmente a aplicação do teu dinheiro entregue às vereações encarregadas de o despender em teu proveito?
Abre pois o olho, José! Porque se o não abres, deixas de ser para sempre o Zé Povo. Serás apenas o Zé Camelo! E merecerás morrer como eleitor do mesmo modo que tens vivido como munícipe: – pobre e podre.»

Por Rafael Bordalo Pinheiro (1846-1905) –
Quem foi Rafael Bordalo Pinheiro?
- Nascimento: 21 de março de 1846, em Lisboa
- Falecimento: 23 de janeiro de 1905
- Foi caricaturista, ilustrador, ceramista, jornalista e pensador político, conhecido por seu humor mordaz e crítica social.
Zé Povinho: O símbolo do povo
- Criado em 1875, o Zé Povinho é a figura mais icónica de Bordalo Pinheiro.
- Representa o homem comum português, com um ar irreverente e crítico, muitas vezes fazendo o gesto da “manguito”.
- Com o tempo, tornou-se um símbolo nacional, usado até hoje em contextos políticos e culturais.

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