Da sátira à graça: reler a Queima do Judas à luz da fé
Há tradições que atravessam gerações e permanecem, quase instintivamente, na alma de um povo. A Queima do Judas, realizada em tantos lugares no final do Carnaval ou na proximidade da Páscoa, é uma dessas expressões que misturam memória bíblica, cultura popular e pedagogia moral.
À primeira vista, pode parecer apenas um gesto folclórico, até algo rude ou caricatural. Mas, olhada com mais atenção, revela uma interrogação espiritual profunda: que fazemos nós com o mal, com a traição, com aquilo que nos afasta de Deus?
A figura de Judas Iscariotes permanece, na consciência cristã, como o rosto da infidelidade. Não apenas a dele, mas a nossa. Porque cada vez que trocamos o Evangelho por conveniências, cada vez que cedemos à indiferença ou à mentira, também nós “vendemos” o essencial por moedas pequenas.
Por isso, a tradição popular de queimar um boneco com o nome de Judas pode ser lida como uma tentativa de dizer, de forma visível: não queremos que o mal tenha a última palavra.
Contudo, a fé cristã vai sempre mais longe do que os símbolos exteriores. Não basta lançar às chamas um boneco de palha se o coração continua preso ao orgulho, à inveja, à dureza.
A verdadeira “queima do Judas” acontece no interior de cada pessoa, quando se deixa que a graça de Deus purifique o que está ferido e reconcilie o que se perdeu. É isso que a Quaresma propõe: um caminho de verdade, de conversão e de regresso ao essencial.
Talvez hoje sejamos chamados a resgatar esta tradição com um olhar novo. Não como condenação de alguém, nem como simples sátira social, mas como gesto simbólico de esperança: queremos que arda em nós tudo aquilo que não é Evangelho.
Queremos queimar a indiferença, a violência das palavras, a falta de tempo para Deus e para os outros. Queremos, sobretudo, abrir espaço para a luz da Páscoa.
No fim, a fé cristã não se centra em Judas, mas em Cristo. E Cristo não responde ao mal com fogo, mas com misericórdia. A cruz não é vingança, é amor levado até ao extremo. Por isso, cada tradição popular só encontra o seu verdadeiro sentido quando nos aproxima desta certeza: Deus não desiste de nós. E a melhor fogueira que podemos acender é aquela que ilumina o caminho da conversão e aquece a vida com a alegria do Evangelho.

Por Sérgio de Carvalho
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O que significa malhar o Judas?
A tradição da queima, ou também chamada de “malhação” de Judas, consiste em criar um boneco, geralmente de trapos ou papel, que representa Judas Iscariotes — o apóstolo que traiu Jesus segundo a narrativa bíblica.
Esse boneco é pendurado em espaços públicos e, em seguida, “malhado” pela comunidade, ou seja, espancado e, por fim, queimado.
Qual o dia de malhar o Judas?
A Malhação de Judas é um ritual realizado tradicionalmente no Sábado de Aleluia, em 4 de abril.
Queima de Judas: como surgiu a tradição?
A prática tem origem nas tradições religiosas medievais da Europa, especialmente em países como Portugal e Espanha e espalhou-se pelas Américas nos países por colonizados na época.
Em países como México e Guatemala, por exemplo, a queima do Judas também é comum e muitas vezes envolve festas populares, sátiras e desfiles. Apesar de variações regionais, o foco continua a ser a punição simbólica a Judas.
Como se faz um boneco Judas?
Fazer um boneco de Judas é uma atividade tradicional e, muitas vezes, coletiva. O boneco é confeccionado com materiais simples e acessíveis, como roupas velhas, palha, papelão, trapos, madeira e até garrafas de plástico, formando o corpo e os membros.
Ele costuma ter um visual caricatural, com rosto pintado à mão ou feito de máscara, e vestido com roupas chamativas ou até fantasias.
Queima de Judas: significado simbólico e social
Embora tenha um significado religioso, a Malhação de Judas ganhou um papel social e político. Em muitas comunidades, o boneco de Judas representa não apenas o personagem bíblico, mas também figuras públicas e autoridades que causaram revolta popular.

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