José Luís Carneiro foi eleito líder do Partido Socialista num contexto de transição interna após a demissão de Pedro Nuno Santos, tornando‑se candidato único e vencendo com uma maioria muito expressiva. Agora apresenta-se de novo a sufrágio e será consagrado no Congresso de Viseu.
Relembramos que Pedro Nuno Santos deixou a liderança do PS após os resultados das legislativas, abrindo espaço para uma eleição interna e que José Luís e Carneiro se apresentou como único candidato, sem oposição interna, o que refletiu um momento de busca de estabilidade dentro do partido.
Foi eleito secretário‑geral com 95,4% dos votos, com cerca de 55% de abstenções numa eleição que ocorreu após uma derrota pesada do PS nas legislativas, o que levou a direção a procurar uma solução rápida e consensual para reorganizar o partido.

A realidade e a fantasia
Depois de temerem o desaparecimento do PS da cena política, a indisponibilidade de candidatos “ilustres” para a tarefa de recuperar o partido foi total, numa unanimidade só quebrada pelo “homem de Baião”. Limpar a casa, normalmente é tarefa atribuída a pessoas com “formação menor” ou “básicas habilitações” e assim foi vista a vitória de JLCarneiro pelas ilustres representantes da sabedoria política, disponíveis portanto para entrar em cena, quando houver ambiente (solene) para eles aparecerem ou, pelo menos, sentarem o solene e socialista cueiro numa das cadeiras desde que na linha da frente.
Parece pois que chegamos ao dito momento que para ser entendido na plenitude precisa que citemos um adversário “social-democrata” , por acaso minhoto, o que nos assegura que com o saber das coisas simples percebe a distinção entre os perfumes da vida. Ora confiram!

Não sei se me estão a perceber, mas cá para mim o que acima se explica é que contra a leitura política ainda dominante no PS a eleição de Seguro para a Presidência foi uma decisão tranquila de quem manda na democracia, pelas eleições, e também me parece que o estilo de liderança de JL Carneiro está a agradar aos mesmo tipo de eleitores!
Dificuldade, pasme-se!, – segundo os excelentíssimos comentadores oficiais da narrativa conveniente – a possibilidade de o congresso trazer a José Luís Carneiro a oportunidade de organizar a casa à sua medida, pois desde que foi eleito, sucedendo a Pedro Nuno Santos, herdou os órgãos deliberativos (Comissão Nacional e a Comissão Política) do ex-líder, podendo agora fazer as suas próprias escolhas.

Ora o busílis está no fazer “as suas próprias escolhas” que em politiquez quer dizer albergar nas listas internas muitos dos seus queridos inimigos que mais não querem do que o substituir na próxima oportunidade.
Os mais crentes acham – e andam por aí a dizer – que JL Carneiro “vai limpar o partido” e apresentar aos portugueses um Partido Socialista digno e capaz de liderar o Governo de Portugal.
A vantagem de José Luís Carneiro
Ora curiosamente para nós a grande vantagem de JL Carneiro na política portuguesa e perante os outros líderes é a sua terra natal. Nasceu a 4 de Outubro de 1971, na freguesia de Campelo, no concelho de Baião, a escassos 12 quilómetros de distância de Tormes. Razão mais que suficiente para ter tomado conhecimento da leitura política feita sobre Lisboa. na monarquia constitucional, pelo residente e vizinho (noutras eras) Eça de Queirós.
Está pois o atual líder do PS conhecedor das articulações da “Corte”, cá em cima também conhecidas e praticadas no dia-a-dia da Lisboa de hoje pelos agora futuríveis e disponíveis candidatos que, dando provas das necessárias competências as fazem acompanhar pela inteligentíssima habilidade de adaptação automática para o que for necessário e, assim. enfrentar , com lucidez, as surpresas que a Política Nacional fará e apresentará ao Partido Socialista.
Debaixo das ramadas de Tormes deixou Eça uns apontamentos que o homem de Baião conhece. E lhe poderão servir de bengala quando os agora disponíveis lhe aparecerem para lhe falar das maravilhas do maná:
- A ineficácia das elites políticas — frequentemente retratadas como improdutivas, retóricas e desligadas do país real.
- O atraso estrutural de Portugal — tema recorrente na sua obra, reforçado pela comparação entre o progresso europeu e a estagnação nacional.
- A burocracia e o formalismo político — que Eça satirizava como entraves ao desenvolvimento.
- A necessidade de regeneração moral e cívica — uma ideia que atravessa os seus romances e crónicas.
- Política urbana e centralista de Lisboa, vista como decadente e artificial.
- Modernidade superficial, que não resolve os problemas reais do país.
- Desconexão entre governantes e governados, simbolizada pela vida luxuosa e improdutiva de Jacinto antes de ir para Tormes.
A vida no Douro surge como contraponto: trabalho, autenticidade, comunidade e regeneração moral — valores que Eça considerava ausentes na política portuguesa.
Cá por mim isto já chegaria para colocar em pânico qualquer um, mas há ainda mais:
- Desilusão com o rotativismo (alternância entre partidos sem mudança real).
- Crítica à corrupção e ao clientelismo.
- Ceticismo sobre o progresso proclamado pelas elites.
- Defesa de uma ética pública mais exigente.

O Tempo deixa perguntas, mostra respostas, esclarece dúvidas, mas, acima de tudo, traz verdades.
Por Arnaldo Meireles
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