O Mestre entrou em sede de reflexão quaresmal, naquela hora propícia para responder “para onde é que eu vou”, e naquele sentimento de destinação que, para quem não sabe o que quer dizer, explica o esforço de cada um em fazer acontecer o seu destino.
As noites em Lisboa são sublimes, aqueles tons de luz deslumbrantes. Mas o ar, sendo quente, é seco e por isso desperta a nostalgia das orvalhadas de Carvalhosa que nascida no rio do mesmo nome sempre inalaram as narinas de sua Excelência.
É por isso que o regresso a casa aparece sempre em segunda velocidade quando o Mestre pensa, e pensa muito, dentro das suas imensas possibilidades de endireitar o mundo e, já agora, o que for preciso. (Que o diga António Costa que tendo sido apanhado no drama do COVID ouviu e leu que cá pelo Capital do Móvel, o problema se resolvia num assobio!).
De regresso aos ares da Capital mas do Móvel eis que o Mestre convidou alguns dos seus discípulos – pensava ele! – com o intuito de os reunir, sentar à mesa, mas nada de partir o pão, isso é que era bom!.
A coisa era mais para anunciar que em 2029 haverá uma nova Epifania – manifestação do poder de Deus – e por isso – no cumprimento do dever e sobretudo para “servir” o Povo e a democracia, reivindicava a liderança de nova cruzada, contra os ímpios, garantindo mais uma esmagadora vitória do povo, na terra que o viu nascer.
A transição que dói
A 11 de Abril de 2025 já titulávamos a dor de cabeça que estava para chegar! Bastava ler o título, mas pronto. Os sintomas desta semana apontam que a transição está a doer apesar dos comunicados oficiais do partido que através da “concelhia” presidida pelo Mestre transborda em textos de apoio, de tal modo desnecessários, que qualquer alma pacífica e bem intencionada começa a desconfiar da coisa. O PS de Paços de Ferreira a manifestar solidariedade ao presidente que acaba de ganhar as eleições e de tomar posse? Mas afinal há algum problema? Possível? Imaginário? Mas na cabeça de quem? Ainda iremos ouvir Paulo Ferreira a dizer: “Deixem-me trabalhar, deixem-me trabalhar?”

Esta narrativa tem tanto de ilustre – basta ver quem a assina – como imaginosa, tanta a criatividade demonstrada que mais parece ter chegado de qualquer nuvem inesperada. Mas para nós trata-se apenas da confirmação de um fenómeno muito comum a quem se habituando ao poder nunca mais deixa de ter saudades das palmas. É o luto do poder.

O luto do poder
Quando alguém ocupa um cargo de grande autoridade — como um presidente durante doze anos — a identidade pessoal e a identidade do cargo começam a se misturar. O poder torna‑se uma espécie de espelho: todos olham, aplaudem, pedem, obedecem. Quando isso desaparece, a pessoa perde não só a função, mas também parte da imagem que construiu de si mesma. Isto gera um luto real:
- perda de relevância
- perda de rotina
- perda de influência
- perda de atenção
- perda de identidade social
É como se o mundo deixasse de girar à volta daquela pessoa. DE tal modo que vítima é o próprio ex‑detentor do poder — mas não no sentido de inocência, e sim no sentido psicológico. Ele sofre as consequências emocionais da perda. Por isso ele sente:
- Vazio: o silêncio onde antes havia aplausos.
- Desorientação: quem sou eu sem o cargo?
- Raiva ou negação: “o povo não reconhece o que fiz”.
- Nostalgia: idealização do passado.
- Dependência emocional do poder: como se fosse uma substância da qual se retirou abruptamente.
Mas porque é que isto acontece? Porque o poder funciona como um reforço constante. Ele molda a identidade. Quando acaba, a pessoa precisa reconstruir quem é — e isso dói. Por isso pessoas que ficaram muito tempo no topo costumam ter mais dificuldade, porque o poder deixa de ser um papel e vira uma parte do “eu”. O luto do poder não é só sobre perder autoridade. É sobre perder a versão de si mesmo que só existia enquanto o poder existia.
Casos históricos e literários de luto do poder
O “luto do poder” é um tema tão antigo quanto a própria política, e a história — assim como a literatura — está cheia de figuras que, ao perderem o trono, o cargo ou a glória, entram numa espiral emocional profunda. Vou trazer alguns casos emblemáticos, de diferentes épocas e estilos, para mostrar como esse luto se manifesta.

1. Napoleão Bonaparte (França)
Depois de dominar a Europa, Napoleão foi exilado duas vezes. No primeiro exílio, em Elba, tentou recriar uma mini‑França, como se recusasse a aceitar a perda do poder.
No segundo, em Santa Helena, mergulhou numa nostalgia amarga, ditando memórias que o colocavam como herói incompreendido.
Sintoma clássico: reconstrução imaginária do poder perdido.
2. Leopoldo II da Bélgica
Após o escândalo internacional sobre o Estado Livre do Congo, Leopoldo perdeu o controlo direto sobre o território. Passou os últimos anos obcecado com a própria imagem, tentando reescrever a narrativa da sua queda.
Sintoma clássico: luta desesperada para preservar o legado.
3. Afonso XIII (Espanha)
Quando a monarquia caiu em 1931, Afonso XIII partiu para o exílio. Relatos mostram um homem que, habituado a ser centro de tudo, não sabia viver como cidadão comum.
Sintoma clássico: perda de identidade social.
4. Richard Nixon (EUA)
Após o escândalo Watergate e a renúncia, Nixon entrou num período de isolamento e profunda crise pessoal. Passou anos tentando recuperar relevância através de livros e entrevistas.
Sintoma clássico: tentativa de reconstrução pública para preencher o vazio.
5. Imperadores Romanos depostos
O Império Romano é um laboratório de luto do poder. Alguns, como Diocleciano, aceitaram a reforma; outros, como Nero, não suportaram a perda do trono e entraram em colapso emocional.
Sintoma clássico: incapacidade de viver sem o aparato imperial.

Casos literários de luto do poder
A literatura adora explorar o momento em que o poderoso cai — porque é aí que a humanidade aparece. Ora veja mais casos:
1. Rei Lear (Shakespeare)
Lear abdica do trono e, ao perder o poder e o respeito, enlouquece. O luto dele não é só político, é existencial: sem o trono, ele não sabe quem é.
Tema central: o poder como identidade.
2. Macbeth (Shakespeare)
Macbeth não perde o poder no início — mas vive aterrorizado com a possibilidade de o perder. O luto aqui é antecipado: ele sofre pela perda futura, como se o poder já estivesse a escapar.
Tema central: o poder como vício.
3. O Cisne de Tuonela (mitologia finlandesa / Kalevala)
Personagens que perdem autoridade mágica ou espiritual entram em estados de melancolia profunda, simbolizando a perda de um papel cósmico.
Tema central: o poder como missão sagrada.
4. O Príncipe de Maquiavel (interpretações literárias)
Embora não seja ficção, muitas leituras dramatizam o destino do príncipe que perde o controlo. A queda é sempre acompanhada de paranoia, ressentimento e isolamento.
Tema central: o poder como sobrevivência.
5. O Velho e o Mar (Hemingway) — leitura metafórica
O pescador Santiago não perde um cargo, mas perde a glória que o definia. A luta com o peixe é uma metáfora para o declínio do poder pessoal.
Tema central: o poder como dignidade.
O que todos estes casos têm em comum:
- O poder cria uma identidade artificial.
- Quando ele desaparece, a pessoa precisa reinventar‑se — e nem todos conseguem.
- O luto do poder é uma mistura de nostalgia, raiva, vazio e busca desesperada por relevância.
- Quanto mais longo o reinado, mais profunda a queda.





