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“Ninguém deve ser reduzido ao pior momento da sua vida”

por Redacção
22 de Maio, 2026
em Actual
Tempo Leitura:7 minutos a ler
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“Ninguém deve ser reduzido ao pior momento da sua vida”
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DECÁLOGO

O Padre João Torres: o sacerdote que leva esperança às prisões e desafia a sociedade a acreditar na mudança Há portas que se fecham com estrondo. Mas, para o Padre João Torres, o mais marcante nas prisões é o silêncio das histórias humanas que ali habitam.
Capelão prisional, coordenador da Pastoral Penitenciária de Braga e pároco da Unidade Pastoral de Priscos, o sacerdote bracarense tem dedicado grande parte da sua vida a acompanhar reclusos, vítimas e famílias marcadas pela dor, acreditando que ninguém deve ser reduzido ao pior momento da sua vida.


Nesta edição do Decálogo – Dez Palavras, o Padre João Torres fala sem filtros sobre prisão, dignidade, conversão, justiça e misericórdia. Numa conversa profundamente humana e
desafiante, denuncia uma sociedade mais preocupada em punir do que em recuperar e deixa um apelo claro a uma Igreja menos acomodada e mais próxima das periferias humanas.
A entrevista passa também pelo impacto social do Presépio ao Vivo de Priscos, projeto que transformou uma tradição natalícia numa verdadeira rede de inclusão e reintegração social,envolvendo reclusos e pessoas em situação de fragilidade.
“Quando as pessoas se juntam, fazem coisas fabulosas”, afirma o sacerdote, numa entrevista onde o Evangelho aparece longe dos discursos abstratos e muito próximo das feridas reais da vida. Entre celas, encontros e recomeços, esta é uma conversa sobre humanidade, fé e esperança. mesmo atrás das grades.

A Vocação – Como nasce a vocação para ser padre… e, de modo particular, para servir no mundo prisional?


Padre João Torres (JT) – A vocação não nasce de um plano traçado — nasce de um fascínio, de um encontro que nos desinstala. Nasce na simplicidade de uma aldeia, no olhar de um pár que está no altar e no adro, com Deus e com as pessoas. Mas cresce quando deixamos de olhar o mundo como uma capoeira fechada e percebemos que há mais vida para além da vedação. No meu caminho, a vocação ganhou carne quando me deixei inquietar: como é que alguém que acredita num Deus de amor encontra quem só conheceu Deus como juiz? A prisão não foi escolha estratégica — foi consequência dessa pergunta. E, desde então, tornou-se lugar teológico, humano e profundamente evangélico.

Prisão – O que é que mais o marcou no primeiro contacto com a realidade da prisão?


JT – O primeiro impacto não é o barulho das portas a fechar — é o silêncio das histórias. Entramos com categorias morais bem definidas e, de repente, tudo se torna mais complexo. Ali não há “casos”, há pessoas. Pessoas com nome, com passado, com feridas. O que mais me marcou foi perceber que a linha que separa quem está dentro e quem está fora é muito mais frágil do que pensamos. A prisão revela-nos isso: que todos somos capazes de cair — e todos precisamos de ser levantados.

Dignidade – Como é que se anuncia a dignidade humana a quem errou gravemente?


JT – A dignidade não se prega — reconhece-se. E reconhece-se quando alguém é olhado sem rótulos, quando é escutado sem pressa, quando é tratado como pessoa e não como processo. É na proximidade que se devolve dignidade. É no gesto simples de estar. Porque há vidas que nunca foram verdadeiramente olhadas. E quando alguém descobre, talvez pela primeira vez, que vale mais do que o seu erro… algo profundamente humano começa a renascer.

Conversão – Na sua experiência, é possível uma verdadeira mudança de vida dentro da prisão?


JT – A conversão é possível — e é real. Já vi acontecer. Não como espetáculo, mas como processo silencioso. Tal como nas missões, onde passamos de um mundo a preto e branco para um mundo cheio de cor, também na prisão se abrem horizontes novos. A mudança não nasce de discursos, nasce de encontros. Quando alguém se sente visto, respeitado, acreditado… começa a reconstruir-se. E isso é milagre quotidiano.

Perdão – O que significa falar de perdão — a quem cometeu crimes e a quem foi vítima?


JT – Falar de perdão é entrar no território mais exigente do Evangelho. Não é apagar o passado, nem relativizar o mal. É atravessá-lo com verdade. Para quem errou, é assumir sem fugir. Para quem foi ferido, é um caminho longo de libertação interior. O perdão não é imediato nem fácil — mas é o único caminho que impede que o mal tenha a última palavra. É o lugar onde a justiça e a misericórdia se encontram.

Igreja – A Igreja está suficientemente presente nas prisões ou ainda há um caminho a fazer?


JT – A Igreja ainda tem muito caminho a fazer. Muitas vezes ficou demasiado acomodada, demasiado “politicamente correta”, demasiado centrada em si mesma. Mas o Evangelho pede outra coisa: saída, risco, proximidade. Temos que nos meter com as pessoas. Não esperar que venham — ir ao encontro. Especialmente dos que estão nas periferias mais duras, como a prisão. Porque uma Igreja que não desce às feridas do mundo… corre o risco de não anunciar verdadeiramente Cristo.

Esperança – Onde encontra sinais concretos de esperança atrás das grades?


JT – A esperança não aparece em grandes discursos — revela-se nos detalhes. Num olhar que muda, numa palavra que ganha verdade, num silêncio que já não é revolta. Está num gesto pequeno que rompe ciclos antigos. Às vezes, é só um começo — mas é suficiente. Porque a esperança não é ilusão: é a certeza de que a pessoa não está definitivamente perdida.

O Presépio de Priscos – Como é que uma iniciativa como o Presépio ao Vivo de Priscos pode tocar também quem vive situações de exclusão?


JT – O Presépio de Priscos nasceu de uma intuição simples: aproximar pessoas. Criar laços. Fazer com que ninguém se sinta estrangeiro. Com o tempo, tornou-se um “presépio de causas e de pessoas”, onde a arte dá lugar à vida e a tradição se torna encontro. Ao envolver reclusos, ao apoiar a sua reintegração, ao criar uma corrente de relações, lembra-nos que o Natal não é uma ideia — é um acontecimento que continua: Deus que vem ao encontro de todos, sem excluir ninguém. É um presépio feito de rostos reais, de histórias feridas, de esperança concreta.

Sociedade – Estamos mais preocupados em punir ou em recuperar as pessoas?

JT – Vivemos numa lógica que privilegia a punição porque é mais rápida e visível. Recuperar dá trabalho, exige tempo, exige relação. Mas uma sociedade que não acredita na possibilidade de mudança fecha-se sobre si mesma. Torna-se mais dura, mais fria, mais distante. Recuperar não é ingenuidade — é responsabilidade. É acreditar que ninguém deve ser reduzido ao pior momento da sua vida.

Desafio – Que mensagem deixaria hoje aos reclusos — e à sociedade que muitas vezes os esquece?


JT – Aos reclusos, diria: a vossa história não terminou. Há sempre possibilidade de recomeço, mesmo quando tudo parece perdido. Não deixem que o passado tenha a última palavra.
À sociedade, diria: aproximem-se. Não julguem à distância. Não desistam das pessoas. Porque, no fundo, tudo se joga aqui: na capacidade de criar encontro. E eu acredito profundamente nisto — porque já vi acontecer: quando as pessoas se juntam, fazem coisas fabulosas. E é nesse encontro, simples e verdadeiro, que Deus continua a nascer no meio de nós.

  • O Padre João Torres, nasceu a 28 de maio de 1976, natural de Arco de Baúlhe – Cabeceiras de Basto. É licenciado em Teologia pela Faculdade de Teologia de Braga da Universidade Católica. Portuguesa e Pós-graduado em Teologia Pastoral pela mesma Universidade. É sacerdote católico, da Arquidiocese de Braga desde 2003 e pároco de Guisande, Tadim e Priscos-
  • Fez diversos projetos de voluntariado em Portugal, Angola e Moçambique. É coordenador da Pastoral Penitenciária de Braga desde 2013 e coordenador Geral de projetos de voluntário no Estabelecimento Prisional de Braga desde 1996 e no Estabelecimento Prisional de Guimarães de 2013 a 2024. É coordenador geral do Projeto “Mais Natal Priscos”, que cria novas oportunidades de desenvolvimento e de integração social de reclusos desde 2015. Tem realizado várias intervenções públicas em rádios e a jornais sobre assuntos relacionados com a vida nas prisões, voluntariado social, “Aldeia das religiões” e Presépio ao Vivo de Priscos.

Entrevista de Sérgio Carvalho

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