Tragédia ambiental ao longo dos cerca de 8km do curso de àgua que atravessa toda a freguesia de Lordelo, no concelho de Paredes.

Na tarde de 25 de junho, a água apresentava-se densa, opaca, com forte coloração, espuma e um odor intenso, revelando uma carga poluente anormal. Na manhã seguinte, embora a aparência superficial da água tivesse melhorado e a chuva tivesse amenizado a situação, permaneciam ainda evidentes depósitos de lamas biológicas escuras e resíduos pastosos acumulados junto às margens, rochas e vegetação submersa, sinais compatíveis com uma contaminação orgânica persistente que afeta gravemente o ecossistema.
Perante esta ocorrência foi apresentada uma nova denúncia ao Ministério Público, solicitando a intervenção urgente das entidades competentes, a realização das necessárias diligências de fiscalização, a recolha de amostras e o apuramento rigoroso da origem da descarga e das respetivas responsabilidades.
Infelizmente, este não é um episódio isolado.
Enquanto Presidente da Junta de Freguesia de Lordelo entre Outubro de 2013 e novembro de 2025 acompanhei diretamente dezenas de ocorrências semelhantes, tendo promovido sucessivas denúncias junto da Agência Portuguesa do Ambiente, do SEPNA/GNR, do Ministério Público, do Governo, da Assembleia da República e da Comissão Europeia. Durante mais de uma década alertei repetidamente para a degradação ambiental do Rio Ferreira e para a necessidade de uma solução estrutural.
Hoje, enquanto Vereador da Câmara Municipal de Paredes, continuarei a denunciar estes sucessivos crimes ambientais. Considero inaceitável que, passados tantos anos, as populações continuem a assistir a novos episódios de poluição num rio que deveria constituir um património ambiental da região.
É do conhecimento público que está em curso um novo processo de requalificação do sistema de tratamento de águas residuais associado à ETAR de Paços de Ferreira. Esse investimento é importante e deve avançar, mas não pode servir de justificação para que continuem a ocorrer episódios de poluição enquanto as obras não são concluídas. O rio não pode esperar pelos tempos da burocracia.
Os cidadãos de Lordelo não podem continuar a ouvir, ano após ano, que “a solução definitiva está a caminho”, enquanto a realidade no terreno permanece praticamente inalterada. A proteção do Rio Ferreira exige fiscalização permanente, transparência, responsabilização e medidas imediatas para minimizar os impactos ambientais até que a solução estrutural esteja efetivamente concluída.
Por isso, exijo:
– uma investigação imediata a esta nova ocorrência e a identificação da sua origem;
– a divulgação pública dos resultados das análises à qualidade da água;
– um acompanhamento rigoroso da execução do novo projeto de requalificação do sistema de tratamento de águas residuais, garantindo que não se repetem os erros do passado;
– informação pública regular sobre as medidas entretanto adotadas para prevenir novas descargas.
O Rio Ferreira é um património natural que pertence às populações dos concelhos de Paços de Ferreira, Paredes e Valongo. A sua degradação prolongada representa uma ameaça à biodiversidade, ao equilíbrio ecológico, à saúde pública e à qualidade de vida de milhares de pessoas.
Continuarei a acompanhar este processo e a exigir que sejam apuradas todas as responsabilidades, porque a defesa do Rio Ferreira não pode depender da persistência de meia dúzia de cidadãos. É um dever das entidades públicas assegurar que a lei é cumprida e que um problema com décadas de existência seja finalmente resolvido.
Por Nuno Serra – Vereador da Câmara Municipal de Paredes
»»»





