Quando São Boaventura rasgou o seu hino – Uma tradição com séculos de encanto conta que, ao receber o hino composto por São Tomás de Aquino para a recém‑instituída festa de Corpus Christi, São Boaventura ficou tão maravilhado com a beleza teológica e poética do texto que rasgou o seu próprio hino.
A tradição da Igreja conserva um dos episódios mais belos da amizade entre dois dos maiores génios da teologia medieval: São Boaventura, franciscano, e São Tomás de Aquino, dominicano. Embora não possa ser confirmado pelas fontes históricas contemporâneas, este relato atravessou os séculos como uma extraordinária lição de humildade.
Em 1264, o Papa Urbano IV instituiu a Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo (Corpus Christi) e quis que a nova festa fosse enriquecida com um ofício litúrgico digno do mistério da Eucaristia. Segundo a tradição, pediu a vários teólogos que preparassem textos para essa celebração, entre eles São Tomás de Aquino e São Boaventura.
Reunidos para apresentar os seus trabalhos, São Tomás começou a ler os hinos e as orações que compusera. A riqueza bíblica, a profundidade teológica e a beleza poética daqueles textos impressionaram profundamente São Boaventura. Enquanto ouvia, compreendeu que aquelas palavras exprimiam de forma admirável o mistério da presença real de Cristo na Eucaristia.
Sem inveja nem desejo de protagonismo, Boaventura terá pegado no manuscrito que preparara e rasgou-o silenciosamente. Não era um gesto de derrota, mas de grandeza espiritual. Reconhecia que a Igreja seria melhor servida pelo trabalho do irmão dominicano do que pelo seu próprio.
Foi assim, segundo a tradição, que chegaram até nós alguns dos mais extraordinários hinos eucarísticos da história da Igreja: Pange Lingua, de onde brota o célebre Tantum Ergo; Lauda Sion Salvatorem; Sacris Solemniis, que inclui o conhecido Panis Angelicus; e Verbum Supernum Prodiens, do qual fazem parte as estrofes do O Salutaris Hostia.
Mais do que um episódio literário, esta tradição recorda-nos que a santidade se mede pela capacidade de reconhecer o bem realizado pelos outros. São Boaventura não procurou que o seu nome ficasse ligado à nova solenidade; desejou apenas que Cristo fosse mais amado e glorificado.
Num mundo frequentemente marcado pela competição, pela necessidade de reconhecimento e pelo culto da imagem, esta antiga tradição continua a oferecer uma lição atual: a verdadeira sabedoria não consiste em ser o melhor, mas em alegrar-se quando o melhor serve a Igreja e conduz os fiéis ao encontro de Deus.

Por Sérgio Carvalho





