Modelos, Ferreira, Carvalhosa e Figueiró formam uma sequência devocional rara, marcada por templos dedicados a São Tiago e por lugares de passagem. Este conjunto patrimonial levanta uma hipótese fascinante: terá o concelho sido rota de peregrinos rumo a Compostela?

Paços de Ferreira, terra de passagem no Caminho de Santiago
O Caminho de Santiago não é apenas uma linha desenhada num mapa. É uma rede de estradas antigas, veredas, caminhos rurais, igrejas, mosteiros, pontes, fontes e lugares de acolhimento que, ao longo dos séculos, conduziram milhares de peregrinos até Santiago de Compostela.
Também o concelho de Paços de Ferreira conserva sinais dessa antiga mobilidade religiosa e humana. Embora não integre atualmente os itinerários mais conhecidos e divulgados do Caminho Português, o território pacense reúne um conjunto significativo de testemunhos ligados à devoção a São Tiago e às antigas vias de circulação entre o Porto, Penafiel, o vale do Sousa, Vizela, Guimarães e Braga.
Esses vestígios justificam uma investigação mais aprofundada e colocam uma questão pertinente: terá existido um antigo itinerário jacobeu a atravessar o concelho de Paços de Ferreira?
Um território entre caminhos
A localização geográfica de Paços de Ferreira sempre favoreceu a circulação de pessoas e mercadorias. Situado entre os vales do Sousa e do Ave, o território estabelecia ligações naturais com o Porto, Penafiel, Lousada, Vizela, Guimarães e Santo Tirso.
Na Idade Média, os peregrinos não seguiam necessariamente um percurso único e rigorosamente definido. Utilizavam as vias disponíveis, preferindo caminhos seguros, próximos de igrejas, mosteiros e comunidades onde pudessem descansar, receber alimento ou participar na oração.

Neste contexto, o Mosteiro de São Pedro de Ferreira assumiria particular relevância. Pela sua importância religiosa, pela sua localização e pela ligação a antigas vias, o mosteiro poderia ter funcionado como ponto de referência para viajantes e peregrinos que atravessavam a região.
Os mosteiros medievais não eram apenas lugares de culto. Eram também centros de acolhimento, assistência e organização do território. Mesmo quando não possuíam um hospital formal de peregrinos, ofereciam proteção espiritual e humana a quem se encontrava em viagem.
Uma concentração invulgar de referências a São Tiago
O principal argumento para o estudo de um possível caminho jacobeu em Paços de Ferreira encontra-se na concentração de igrejas, capelas e topónimos relacionados com São Tiago.
Em Modelos, a igreja paroquial é dedicada ao apóstolo e encontra-se numa avenida que conserva o nome de Santiago. A invocação poderá representar mais do que uma simples devoção local, sobretudo quando analisada em conjunto com os restantes lugares do concelho.
Na parõquia de Ferreira, a Capela de São Tiago da Serra mantém uma tradição religiosa antiga. A sua implantação num ponto elevado da paisagem faz pensar na função que muitas capelas e ermidas desempenhavam como referências visuais e espirituais para os viajantes.
Também na cidade de Paços de Ferreira existem as chamadas Alminhas de São Tiago. Estes pequenos monumentos de religiosidade popular eram frequentemente erguidos junto de caminhos e encruzilhadas, podendo ajudar a reconstituir antigas vias de passagem.
Carvalhosa e Figueiró possuem igualmente igrejas dedicadas a São Tiago. Esta sucessão de lugares com o mesmo orago desenha uma espécie de corredor devocional que merece ser estudado com rigor.
Modelos, Paços de Ferreira, o Mosteiro de Ferreira, São Tiago da Serra, Carvalhosa e Figueiró formam, assim, uma sequência territorial coerente. A partir daí, o percurso poderia continuar em direção a Lousada, Vizela, Guimarães ou Braga, ligando-se a outros caminhos utilizados pelos peregrinos.
Não se pode, contudo, afirmar sem reservas que existiu um único trajeto oficial e perfeitamente delimitado. O mais provável é que o território fosse atravessado por uma rede de caminhos secundários, adaptados às condições da viagem e às necessidades dos peregrinos.
Recuperar a memória antes de criar uma rota
A valorização do Caminho de Santiago em Paços de Ferreira deve começar pela investigação e não apenas pela promoção turística.
É necessário consultar documentação medieval, arquivos paroquiais e diocesanos, cartografia antiga, Memórias Paroquiais, inventários patrimoniais e estudos sobre vias romanas e medievais. Deve igualmente ser recolhida a tradição oral das populações, particularmente nas freguesias onde a devoção a São Tiago permanece viva.
O levantamento dos antigos caminhos rurais é igualmente essencial. A urbanização, o crescimento industrial e a abertura de novas estradas alteraram profundamente a paisagem e fizeram desaparecer alguns dos percursos tradicionais.
Uma equipa composta por historiadores, arqueólogos, geógrafos, técnicos municipais, representantes das paróquias e associações jacobeias poderia estudar e validar um possível itinerário.
Só depois desse trabalho seria possível criar um percurso devidamente sinalizado, seguro e historicamente credível.
Um caminho de fé, cultura e desenvolvimento
A recuperação deste património poderia assumir grande importância religiosa, cultural, educativa e económica.
Do ponto de vista espiritual, o percurso permitiria valorizar o Mosteiro de São Pedro de Ferreira, as igrejas dedicadas a São Tiago, as capelas, os cruzeiros e as alminhas como lugares de oração, silêncio e encontro.
Poderiam ser promovidas caminhadas e peregrinações por ocasião do dia 25 de julho, festa de São Tiago Maior, envolvendo paróquias, escolas, associações e comunidades locais.
No campo educativo, o caminho constituiria um recurso de enorme riqueza. Os alunos poderiam estudar a história local, a geografia, o património, a espiritualidade da peregrinação e as tradições das diferentes freguesias.
O percurso poderia também dialogar com outros elementos patrimoniais do concelho, como a Citânia de Sanfins, o Dólmen de Lamoso e o património românico.
A identidade industrial de Paços de Ferreira oferece ainda possibilidades originais. A Capital do Móvel poderia produzir bordões, vieiras em madeira, bancos para zonas de descanso, painéis informativos e outros elementos ligados à hospitalidade dos peregrinos.
Cafés, restaurantes, alojamentos, juntas de freguesia, associações, farmácias e comércio tradicional poderiam integrar uma rede de apoio, contribuindo para a dinamização económica das localidades atravessadas.
Um projeto que exige cooperação
Um Caminho de Santiago não pode terminar na fronteira de um concelho. A sua credibilidade depende da continuidade territorial e da articulação com os municípios vizinhos.
Paços de Ferreira deverá, por isso, trabalhar com Penafiel, Paredes, Lousada, Vizela, Guimarães e Santo Tirso, procurando compreender como os antigos caminhos se ligavam entre si e quais as possibilidades de criar um itinerário supramunicipal.
A eventual recuperação de um caminho jacobeu não deve ser vista como a invenção de uma nova rota, mas como a reconstrução prudente de uma memória histórica.
Os testemunhos existentes são suficientemente relevantes para justificar o estudo. O Mosteiro de Ferreira, São Tiago de Modelos, São Tiago da Serra, as Alminhas de São Tiago, Carvalhosa e Figueiró revelam uma presença jacobeia que não pode ser ignorada.
Paços de Ferreira possui património, devoção e posição geográfica para se afirmar como terra de passagem no Caminho de Santiago.
Falta agora colocar a investigação, as instituições e as comunidades verdadeiramente a caminho.

Por Sérgio Carvalho





