A figura de São Tiago Maior ganhou, ao longo de dois mil anos, três iconografias que revelam a profundidade da sua missão: o Apóstolo que anuncia o Evangelho, o Peregrino que acompanha milhões rumo a Compostela e o Cavaleiro que simboliza a vitória da fé sobre o mal. Estas três faces não se contradizem — completam‑se e mostram porque Santiago continua a ser, hoje, companheiro de caminho e mestre espiritual para tantos cristãos.

As três faces de São Tiago Maior: Apóstolo, Peregrino e Cavaleiro
Por Sérgio Carvalho
Poucos santos conheceram uma riqueza iconográfica tão marcante como São Tiago Maior, o Apóstolo. Ao longo de quase dois milénios, a arte cristã moldou três grandes representações da sua figura: Santiago Apóstolo, Santiago Peregrino e Santiago Cavaleiro. Longe de serem imagens contraditórias, estas três iconografias completam-se e ajudam a compreender a profundidade da missão daquele que foi um dos primeiros discípulos de Jesus, o primeiro dos Apóstolos a derramar o sangue pela fé e o padroeiro de Espanha.
A representação mais antiga é a de Santiago Apóstolo. Aqui encontramos o discípulo escolhido por Cristo junto ao lago da Galileia, irmão de João Evangelista e membro do círculo mais próximo de Jesus. A tradição artística apresenta-o vestido com túnica e manto, segurando um livro ou um pergaminho, sinal da missão de anunciar o Evangelho. Muitas vezes surge também com uma espada, não como arma de combate, mas como memória do seu martírio. Segundo os Atos dos Apóstolos (12, 1-2), Tiago foi decapitado por ordem de Herodes Agripa, tornando-se o primeiro dos Doze a entregar a vida por Cristo. Esta iconografia recorda que a verdadeira autoridade cristã nasce do testemunho e da fidelidade ao Evangelho.
Séculos mais tarde, a descoberta do seu túmulo em Compostela transformou São Tiago no grande companheiro dos peregrinos. Surge então a imagem de Santiago Peregrino, provavelmente a mais conhecida em todo o mundo. O chapéu de aba larga, o bordão, a cabaça, a bolsa de viagem e a concha de vieira tornaram-se símbolos universais do Caminho de Santiago. Curiosamente, esta representação não pretende mostrar o Apóstolo como peregrino durante a sua vida terrena, mas como aquele que acompanha espiritualmente milhões de homens e mulheres que, desde a Idade Média até aos nossos dias, percorrem os caminhos que conduzem ao seu sepulcro. Nesta imagem, Santiago torna-se símbolo da Igreja peregrina, lembrando que toda a existência cristã é uma caminhada em direção ao encontro definitivo com Deus.
A terceira representação, talvez a mais marcante do imaginário medieval, é a de Santiago Cavaleiro, conhecido popularmente como Santiago Matamoros. Montado num cavalo branco, empunhando uma espada e envergando armadura, o Apóstolo aparece associado à tradição da Batalha de Clavijo, onde, segundo a lenda, teria surgido milagrosamente em auxílio dos exércitos cristãos durante a Reconquista. Embora os historiadores reconheçam que este episódio pertence ao campo da tradição e não da história documentada, a sua força simbólica foi enorme. Mais do que celebrar a guerra, esta imagem procurava afirmar a certeza de que Deus acompanha o seu povo nas grandes lutas da história. Hoje, a Igreja interpreta esta iconografia sobretudo como sinal da vitória da fé, da verdade e da esperança sobre todas as formas de mal.
Estas três representações correspondem, afinal, a três dimensões permanentes da vida cristã. O Apóstolo recorda-nos a importância da evangelização e do testemunho; o Peregrino convida-nos a viver a fé como caminho de conversão; o Cavaleiro desafia-nos a combater, não contra pessoas, mas contra tudo aquilo que obscurece o Evangelho: a injustiça, o egoísmo, a violência, a mentira e a desesperança.
Talvez seja esta a grande atualidade de São Tiago. Num mundo marcado pela pressa, pela incerteza e pela fragmentação, continua a apontar três caminhos fundamentais: anunciar Cristo com coragem, caminhar com perseverança e lutar diariamente pela santidade. É esta síntese que explica porque, passados quase vinte séculos, milhões de pessoas continuam a olhar para o Apóstolo não apenas como uma figura do passado, mas como um companheiro de viagem, um mestre da fé e um intercessor junto de Deus.
Celebrar São Tiago é, por isso, muito mais do que recordar um santo. É renovar o convite a sermos discípulos missionários, peregrinos da esperança e testemunhas corajosas do Evangelho no mundo de hoje.






