Dizem que o preço dos combustíveis está alto. Mas nada supera o preço da “coisa” mais cara da política portuguesa: a fotografia perfeita.
A cena é conhecida: o líder, de manga arregaçada, abastece um carro como se estivesse a salvar o país gota a gota. À volta, uma pequena procissão de políticos profissionais observa o ritual com a devoção de quem assiste a um milagre. Uns seguram o telemóvel, outros o sorriso, todos seguram a esperança — não a do país, mas a esperança deles.
Porque ali, naquele momento, não se abastece só gasolina. Abastece-se carreira.
Os assistentes, estrategicamente posicionados, parecem saídos de um documentário sobre fauna partidária: criaturas que vivem da energia alheia, alimentando-se de promessas, lugares e da eterna expectativa de que, se ficarem muito quietinhos, alguém os há de nomear para qualquer coisa com gabinete e estacionamento reservado.
Enquanto o líder trabalha — ou pelo menos finge muito bem que trabalha — eles ficam ali, imóveis, como avestruzes políticas: cabeça enfiada na areia das intrigas internas, corpo à espera de um cargo, e olhos sempre atentos ao próximo “gasolineiro” que possa surgir na curva seguinte.
Porque na política, como na bomba de gasolina, quem segura a mangueira hoje pode muito bem ser substituído amanhã por alguém que segurou melhor o sorriso, a intriga ou o alinhamento interno.
E assim segue o país: uns abastecem, outros observam, todos conspiram. O combustível sobe, a fotografia desce, e a esperança… essa fica sempre à espera que alguém finalmente tire a cabeça da areia.
-+++++++++++++++++






