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Bruxo ou Santo, São Cipriano tem igreja dedicada em Cerveira

por Redacção
24 de Setembro, 2023
em Actual
Tempo Leitura:5 minutos a ler
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Bruxo ou Santo, São Cipriano tem igreja dedicada em Cerveira
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Bruxo ou Santo?

A figura do santo recebe certo crédito dos cristãos, deixando o status de lendária, para ilustrar um tema caro à igreja: o feiticeiro que vende a sua alma ao diabo, mas se converte a Cristo.

Um dos nomes mais enigmáticos e polémicos na lista dos santos da longa tradição cristã é o de São Cipriano. Se para uns tantos o nome remete ao misterioso Livro de São Cipriano – um conjunto de rituais e encantamentos mágicos escrito pelo mago antes da sua conversão ao cristianismo –, para outros mais o Mago Cipriano nunca existiu e as suas histórias nasceram da confusão com um homónimo cristão.
Com Capa Preta, Capa de Aço, Capa de Couro ou Tesouro do Feiticeiro, qualquer que seja a nomenclatura, você já deve ter visto o Livro de São Cipriano à venda no catálogo de alguma editora. Profano e insondável, tido por alguns como um livro de encantamentos perigosos e sedutores, repleto de feitiços práticos ou complexos rituais de magia negra.
Uma obra tão séria e efetiva que se tornou objeto de desejo de colecionadores, de iniciados das ciências proibidas e de disputa entre vários segmentos das religiões de matiz africana.

Na verdade, não é nada assim e de modo algum tão nefasto ou sinistro quanto algumas editoras prezam sugerir para influenciar as suas vendas.

Em muitas dessas edições o leitor é supostamente conduzido a uma viagem ancestral que, dependendo de seu empenho, lhe possibilitará conjurar espíritos, anjos, demónios e outros seres mitológicos.

Na ausência dos escrúpulos do organizador editorial, as versões do tal livro podem contar, ainda, com feitiços para amor, simpatias para enriquecer, causar contratempos ou mesmo matar os seus inimigos, além de possibilitar a qualquer neófito proscrito o acesso ao tal pacto demoníaco…

Capa da edição mais antiga do livro de São Cipriano / Crédito: Biblioteca Nacional de Lisboa

“Se Deus é mais poderoso que tu, prefiro então servir a Ele.”

Assim, procurou o bispo Antímio e, conforme consta do relato popular, pediu que lhe instruísse na fé cristã. Cipriano então dedicou-se ao estudo das Santas Escrituras, renegando todo conhecimento perverso de magia negra que tinha adquirido anteriormente. Nada mais rocambolesco.

Na Idade Média, essa lenda, muito estimada pelos religiosos, foi corroborada pela introdução de São Cipriano e Santa Justina no calendário litúrgico. O Livro poderoso de São Cipriano tem o seu núcleo já no século IV, quando se difundiam as preces de Cipriano, utilizadas quase como fórmulas mágicas.

A figura de São Cipriano, assim, recebe certo crédito dos cristãos, deixando o status de lendária, para ilustrar um tema caro à igreja: o feiticeiro que vende a sua alma ao diabo, mas se converte a Cristo.

Após a sua morte, o dito Cipriano gozou de grande fama e estima, pois foi um mártir heróico, que marcou pontos para a Igreja do seu tempo.

A data de 26 de setembro é citada pelo Martirológio Romano – Catálogo de Mártires da Igreja – como a festa dos mártires São Cipriano e Santa Justina.

A história dessas figuras é narrada em grego, latim, sírio, árabe, etíope, copta e pálio-eslavo – o que bem demonstra o quanto a lenda era valorizada. Essas várias versões não coincidem sempre entre si; ao contrário, divergem imensamente, cada qual com seus exageros.

A dita Conversão de São Cipriano tem ainda na literatura cristã dois complementos grotescos. O primeiro, intitulado A Confissão de Cipriano é uma aplicação infeliz do termo Conversão numa narrativa insólita onde o seu autor acumula algumas histórias das artes mágicas – à quais Cipriano renegou.

Em muitas dessas passagens, cai no ridículo, quando menciona, por exemplo, que Agládio tomou a forma de pássaro e pousou num telhado a fim de espreitar Justina; todavia, logo que conseguiu ver a moça, perdeu a qualidade de pássaro – adquirira por feitiçaria – e retomou a sua condição de homem. Daí, o pobre experimentou enormes dificuldades para descer do telhado…

No segundo complemento, chamado A Paixão de Cipriano, o autor recorre a outra linha de narrativa. Menciona que Cipriano e Justina, cristãos, foram presos por ordem do Conde Eutólmio e levados para Damasco.

Durante o interrogatório, Cipriano foi torturado com garras de ferro, enquanto Justina era chicoteada ferozmente. Ambos foram mergulhados em óleo fervente e depois decapitados.

Os seus corpos foram mantidos expostos para que as feras e abutres os devorassem. Seis dias depois, os seus cadáveres ainda estavam intactos e, por ocasião de terem sido encontrados por peregrinos cristãos, foram levados para Roma, onde lhes foi concedida honrosa sepultura.

Contudo, tudo não passa de invencionice. Nas listas onde figuram os nomes do Bispos de Antioquia nunca houve nenhum Antímio, muito menos qualquer referência ao nome Cipriano.
E mais, o culto dos mártires sempre esteve ligado aos túmulos respectivos.
A arqueologia moderna não reconhece a existência de um sepulcro sequer ligado ao nome Cipriano e em Roma não se conhece tal túmulo.
Na Idade Média, por outro lado, houve relatos de cristãos que julgavam ter encontrado relíquias, supostamente, ligadas à Justina e Cipriano, daí a introdução dos dois mártires na Liturgia de Roma.

No caso específico de Cipriano, a confusão é ainda maior. Os livros editados sobre o bruxo se contradizem ao mencionarem passagens de dois Ciprianos, em épocas diferentes: um na Antioquia outro em Cartago. Conforme aduzido, não há muitas evidências que Cipriano de Antioquia realmente tenha existido.

Por outro lado, os registos históricos conhecem um Cipriano que foi bispo em Cartago, no Norte da África, entre os anos 249 e 258.

Considerado um dos doutores da Igreja, um grande orador e um dos pais do cristianismo deixou numerosos escritos teológicos, editados até os dias de hoje, que nada tem a ver com magia ou ocultismo.

Redacção

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